O realismo fantástico como estilo arquitetônico

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O endereço é tão central quanto poderia ser. O Edifício Anita fica na esquina em que se encontram a Cândido Lopes, a Carlos de Carvalo e a Ermelino de Leão. Há espaços comerciais no térreo e escritórios nos dois pavimentos superiores. A fachada do térreo recebeu uma pintura recentemente e os outros andares estão cobertos por trepadeiras. Pelo pouco de parede nua que resta entre as folhagens é possível perceber uma mistura morta de bege e cinza. O Edifício Anita é um exemplo médio da arquitetura moderna praticada na Curitiba dos anos 1950: há cantos arredondados e septos entre as janelas generosas. Parece lícito cogitar que o prédio tenha ficado mais bonito com o tempo: melhor estar coberto de trepadeiras que de um cinza tedioso.

Na face do Anita que dá para a Cândido Lopes há uma porta estreita de aço e vidro. Quem entra por ali encontra lances de uma escadaria estreita com portas cinzas pelo caminho. Também há janelas basculantes, mas pouca luz passa por elas. Subindo a escadaria até o final, chega-se ao que poderia ser definido como uma casa de campo.

O piso está revestido com ardósia. Há um fogão a lenha e uma cozinha ampla com uma churrasqueira. Do lado oposto à cozinha há um fosso protegido por uma grade. A casa de campo no topo do Edifício Anita tem um buraco escuro no meio da sala e uma varanda para quem desejar contemplá-lo. Os basculantes da escadaria abaixo dão para esse fosso, o que explica a pouca luz. A referência literária mais óbvia para entender a casa quase colonial no topo do prédio de arquitetura moderna é O Processo. No livro, o protagonista de Kafka transita por caminhos inesperados e quase metafísicos. Um corredor subterrâneo pode ter uma porta que dá para uma praça no nível da rua e outra que leva ao terceiro andar de um prédio público. Entrar pela portinha da Cândido Lopes e encontrar uma casa de campo no centro da cidade é a versão possível de tudo isso. O fosso no meio da sala só reforça o caráter kafkiano da residência.

Quem margeia o fosso encontra uma escada em caracol. Ela leva o visitante a um espaçoso mesanino de madeira. Do lado de fora há um terraço quase tão grande quanto a área interna da casa. Como o terraço está cercado por prédios altos e cheios de janelas, quem pisa ali tem a impressão de estar num picadeiro rodeado por arquibancadas. Consta que no meio do picadeiro já houve uma jacuzi.

O Edifício Anita foi construído na década de 1950 pelo jornalista Frederico Faria de Oliveira. Dono de uma carreira relevante na imprensa local, Frederico hoje é nome de logradouro público. Nos tempos dele, o máximo que havia no topo do Anita era um letreiro luminoso da Coca-Cola. Quem construiu a casa kafkiana foi o arquiteto Guenther Kuschick. Até o final dos anos 1990, ele usava o espaço para reunir a família nos finais de semana. Depois de 1999, ano da morte de Guenther, a casa ficou esquecida por um tempo. Em anos mais recentes, virou residência do publicitário Artur Lipori e depois do físico Gabriel Guerrer. Lipori e Guerrer chegaram ao topo do Edifício Anita como locatários. Antes disso, o cineasta Francis Ford Coppola já tinha passado por lá, mas apenas como visitante. Quando esteve em Curitiba, Coppola pediu para conhecer a casa. Disse que o lugar poderia servir como locação para um futuro filme. Tendo saciado a curiosidade, ele nunca voltou com uma equipe de filmagem.

Atualmente a casa no topo do Anita passa por reformas. Quem toca a obra é a fotógrafa Andrea Kucshick, filha de Guenther. Quando a reforma estiver concluída (o que não deve levar mais de duas semanas) ela pretende encontrar um novo locatário. Quem quiser usar o espaço como escritório, estúdio ou ateliê terá preferência.

Pelo telefone, pergunto a Andrea se ela pretende vender a casa. “De jeito nenhum”, ela quase ergue a voz. Minha mulher, apaixonada pelo lugar, espiona a conversa e insiste para que eu arranque de Andrea a promessa de que a casa, uma lenda sem nome da arquitetura local, nunca será vendida para ninguém além de nós. Desobedeço e aceito as consequências.

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Mente e matéria, vida e morte e outras coisas apenas aparentemente opostas

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Foto de Nicola Iannuzzi

Gabriel e Daniel sentados diante de uma fogueira em um quintal do Ahú. Há pinhão, cerveja e frases marcantes: “O fogo é o sangue da matéria”, começa Gabriel. A declaração é a deixa para uma breve aula de termodinâmica. Na sequência, Daniel faz uma abordagem antropológica do mesmo tema: fala da fascinação que nosso ancestrais devem ter sentido diante da descoberta do fogo e do quão determinante ela seria para o futuro da humanidade.

Gabriel Guerrer é físico e Daniel Rezinovsky é psicólogo. Juntos, eles organizam conferências em que discutem a inesperada intersecção dos conhecimentos dos dois: a mente e a matéria. Irônicamente, o fogo é um dos assuntos mais palpáveis com o qual eles lidam.

Durante boa parte do tempo, Guerrer e Rezinovsky tratam do mundo das partículas subatômicas. Nesse mundo estranho, uma partícula pode existir em dois lugares ao mesmo tempo, até que alguém resolva olhar para ela. Se partículas subatômicas tendem a se comportar de maneira diferente só porque há alguém as observando, é válido cogitar a hipótese de que esse mesmo princípio afete o mundo macroscópico. Há uma infinidade de teorias que contemplam essa possibilidade. Guerrer faz um compêndio dessas ideias. Razinovsky fala de sociedades ~primitivas~ que já sabiam de tudo isso mais por instinto e fé que por ciência. Em poucos minutos, os dois contam uma história que inclui personagens e cenários tão diversos quanto físicos em um acelerador de partículas e índios na amazônia.

Uma das tentativas mais conhecidas de comprovar os efeitos da mente sobre a matéria remete aos anos 1980, quando Roger Nelson, um psicólogo com PhD por Princeton, começa suas experiências com um aparelho chamado Gerador de Números Aleatórios. O que o instrumento faz é “sortear” 0s e 1s. Por observação, Nelson concluiu que quando alguém se concentra no aparelho há uma flutuação anormal das probabilidades: são sorteados muitos 0s seguidos ou muitos 1s.  Os resultados obtidos permitiram que Nelson conquistasse outros pesquisadores ao redor no mundo para a iniciativa. Em 1998, ele fundou o Global Consciousness Project, uma rede de geradores de números aleatórios espalhados por 340 laboratórios em todo o mundo; os dados coletados são enviados para a sede do projeto, em Princeton. A hipótese testada pelo experimento é pretensiosa: a existência de uma consciência coletiva capaz de alterar as leituras dos aparelhos. Até aqui, o experimento tem captado um desvio das probabilidades diante de eventos de impacto global; foi assim nas eleições norte-americanas de 2008.

Guerrer e Rezinovsky usam um gerador de números aleatórios acoplado a uma lâmpada colorida. Quanto menos aleatoriedade há no padrão de 0s e 1s sorteado pelo aparelho, mais forte é a luz emitida. Vi dois flashes vermelhos seguidos e a parte menos cética de mim ficou temendo um mau presságio. “Isso não é muito normal”, avisou Rezinovsky.  Lembrei das teses de Roger Nelson e imaginei se o temor já não seria o suficiente para afetar o experimento.

Para Guerrer, o gerador de números aleatórios deve ser um brinquedo. Doutor em física, ele passou um ano no Grande Colisor de Hádrons; a estrutura de vinte e sete quilômetros de extensão que descobriu o Bóson de Higgs. Antes disso, era operador financeiro. Quem o ouve contar a própria história, conclui que ele trocou as grandes cifras pelas pequenas partículas como quem atende a um chamado.

Além da lâmpada colorida, Gabriel e Daniel apelam para uma série de referências teóricas. Se citam Freud, Jung e Lacan num minuto, vão de Schrödinger e Einstein no seguinte. As citações, extraídas de ciências tão distintas, acompanham a diversidade dos temas. Uma conversa que começa com o comportamento de partículas subatômicas e cai na hipótese de uma consciência coletiva pode abranger até mesmo assuntos como telepatia. Nesse caso, Rezinovsky fará sua primeira menção a um ícone da cultura pop. Ele conta que no começo dos anos 1970, um show do Grateful Dead foi usado em um estudo. O pesquisador Stanley Krippner subiu no palco e pediu que as duas mil pessoas da plateia se concentrassem em determinadas imagens para transmití-las mentalmente a um grupo de voluntários que dormia em um laboratório. Krippner queria saber se as cobaias sonhariam com as imagens e obteve resultados relevantes de pelo menos um dos “receptores”.

Lá pelas tantas, a conversa chega aos confins do cosmos. Ouço, por exemplo, que a maior parte do universo é formada por matéria negra, algo que só interage com o mundo conhecido pela gravidade. A força exercida pela matéria negra tem um papel fundamental nas equações que explicam como galáxias se mantém unidas, com sistemas solares girando em perfeita ordem como se fossem as engrenagens de um relógio. Não que Gabriel e Daniel gostem dessa metáfora: “Durante muito tempo nós imaginamos o universo como uma máquina. Talvez seja mais correto imaginá-lo como uma grande consciência”, arremata Gabriel. Embora flerte com a filosofia e até com a espiritualidade, a frase leva a conversa de volta para a física quântica: a noção de que o observador altera o experimento está de volta, agora em uma escala cósmica.

A essas alturas, mesmo o pior aluno dos cursos de Guerrer e Rezivosky já terá entendido a premissa de que é possível alterar a realidade sem interagir diretamente com ela: o ato de observar, por si só, já configura uma interação. Daqui em diante, o tema principal será o observador. Se a realidade observável é o tema de Guerrer, o observador é o objeto de estudo de Rezinovsky. Certamente não é um assunto menos complexo que os anteriores. Por observador, nessa conversa, entende-se cérebro; os 2% mais incompreendidos do corpo humano.

A ciência cognitiva é um campo em que o psicólogo se sente a vontade. Aparentemente, o viés preferido é o da chamada “abordagem simbólica” da ciência cognitiva. A abordagem simbólica se sustenta em analogias entre os processos mentais e os procedimentos realizados por computadores. Diante da fogueira, Daniel faz uma imitação perfeita de Terrence McKeena: “A cultura é o seu sistema operacional”. Dessa comparação, McKeena tira algumas conclusões que Rezinovsky jamais dispensaria: alguns sistemas operacionais (culturas) são incompatíveis com programas (hábitos) amplamente aceitos em outros sistemas. Quem quiser desenvolver alguma tolerância precisa fazer uma atualização do próprio software.

Evocar tolerância parece prudente antes de levar a conversa adiante. Se quiser falar sobre o cérebro, Rezinovsky vai precisar abordar os estados alterados de consciência. E se quiser falar sobre tais estados, ele será obrigado a mencionar as drogas que os provocam. Embora a abordagem seja diferente da euforia que gerou a proibição do LSD nos anos 1970, há bons motivos para cautela. Quando o LSD foi banido, outras substâncias também foram para o limbo, por analogia química. Se as proibições não acabaram com o uso recreacional dos alucinógenos, elas tiveram muito mais sucesso ao sepultar as pesquisas acadêmicas sobre eles. Daniel sustenta que o estudo dessas substâncias poderia ser útil não apenas para desvendar o funcionamento do cérebro humano, mas também para responder perguntas tão antigas quanto a humanidade. Por exemplo: o que é a morte?

No final do século XIX, o psicólogo e epistemólogo francês Victor Egger cunhou a expressão “expérience de mort imminente” para definir o conjunto de sensações descrito por pacientes que tinham sido declarados clinicamente mortos. Desde de Egger, houve várias tentativas pouco frutíferas de desvendar as experiências de quase morte pelas vias da ciência. Daniel argumenta que esses estudos poderiam ser mais conclusivos se incluíssem testes com uma substância capaz de gerar as mesmas sensações de uma experiência de quase morte. Essa substância existe, é a dimetiltriptamina, ou DMT.

Embora os estudos a respeito do DMT sejam escassos, sabe-se que ele é produzido expontaneamente pela glândula pineal. Há evidências de que ele é secretado em pequenas quantidades durante os estágios mais profundos do sono e em concentrações muito maiores quando o cérebro está prestes a ser desligado para sempre. Ainda que a relação química entre o DMT e a morte possa ser explicada, restará o mistério da experiência em si. Céticos e espiritualistas concordam: é uma viagem e tanto.

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Médico também adoece

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Se Dayana Dams fala suave, Julyana Maiolino fala animadamente. Se Dayana tem uma postura séria e contemplativa, Julyana tem sorriso fácil. Se Dayana é loira, Julyana é morena. As diferenças acabam por aí. Um par de ípsolons e uma série circunstâncias aproximam as duas. Ambas são médicas, jovens e começaram a carreira na saúde pública municipal.

Os postos de saúde de Curitiba são feitos de gente como elas: são médicos na casa dos vinte e tantos anos acumulando experiências em um ritmo deveras cansativo. Esses profissionais encaram o posto de saúde como uma passagem necessária; uma escola. Ninguém planeja ficar na escola para sempre.

Julyana e Dayana trabalham na Unidade de Saúde 24h Albert Sabin, no Fazendinha. Chegaram quase juntas e estão ali há cerca de dois anos e meio; nesse período acumularam fadiga e histórias. De vez em quando, elas precisam dar uma pausa no expediente e visitar uma delegacia. Não é raro que os médicos das unidades de saúde sejam ameaçados ou agredidos. Há duas fontes básicas de conflitos: o atestado médico e o conceito divergente que os profissionais e os pacientes fazem do termo “emergência”.

Quem chega ao posto de saúde precisa passar primeiro por uma triagem. Esse procedimento é liderado por enfermeiros e só pode ser ignorado quando a emergência é muito óbvia; uma fratura exposta, por exemplo. Recentemente, o consultório de Dayana foi invadido por uma mulher que se recusava a esperar; ela trazia a mãe para receber atendimento. A moça aparentemente tinha o seu próprio entendimento daquilo que uma “emergência” deve ser. Ela pulou a triagem, mandou os enfermeiros para o inferno e abriu a porta do corredor que leva aos consultórios, fazendo balançar a plaquinha que recomenda “Acesso Restrito”.

É difícil imaginar Dayana subindo nas tamancas. Ela é magra e tem um aspecto delicado, quase frágil; além disso há a fala suave de professora de jardim de infância. Um observador ocasional veria nela a virtude utópica da paciência infinita. Era essa paciência que a invasora do consultório estava testando. Dayana pediu que ela voltasse para a triagem. O pedido, claro, não foi atendido. Quando a médica pegou o celular – pretendia mandar uma mensagem de socorro para a chefia – a moça ficou irritada. Perseguiu Dayana pelos corredores da unidade de saúde aos berros: “VOCÊ NÃO TEM JESUS NO CORAÇÃO!”

Julyana ajeita no rosto os óculos de aro de tartaruga antes de contar os apuros pelos quais já passou nesses dois anos e meio de saúde pública. Como o sorriso fixo no rosto da médica sugere, as histórias dela tendem a ser cômicas. “Nada deixa a gente mais de cara que as malandragens com atestado”, começa Julyana. Depois disso ela conta o caso de um paciente que pingou limão nos olhos para conseguir se livrar do trabalho alegando conjuntivite e de um outro esperto que jurava ter tido uma febre de quarenta e três graus que o termômetro jamais comprovaria. Julyana confessa que já precisou conceder um atestado que gostaria de não ter carimbado: ela estava sozinha com um paciente bastante agressivo e ouviu ameaças muito claras.

Na véspera da última eleição, a Unidade de Saúde Albert Sabin recebeu um aparelho de Raio X. Mais recentemente, no começo do ano, chegaram as câmeras de segurança. Nesse mesmo período, o painel eletrônico que convoca os pacientes ao atendimento pifou e ainda não foi arrumado. Desde então, todos são chamados no grito. Pequenos materiais costumam faltar com frequência e as macas estão sem lençóis. A sala de descanso da equipe continua no mesmo estado: há três beliches apinhados num espaço pequeno, há um armário cinza metálico tapando a janela e há um colchão meio puído jogado no chão. Consta que, no ano passado, alguém entrou ali para tirar uma soneca e acordou ao lado de um cachorro de rua; o bicho invadiu o espaço sorrateiramente e se aconchegou no cobertor. A salinha é gelada e tem um aspecto muito mais insalubre que as demais instalações da unidade. Trabalhando das sete às sete, Dayana vai precisar usar o espaço em algum momento. Não há alternativa.

São meia noite e dezesseis quando Dayana faz o décimo sétimo atendimento do seu turno. A paciente é Joselita de Moura, uma mulher de 29 anos que sofre de problemas gástricos. Dayana ouve Joselita narrar seus sintomas e suas tentativas de automedicação enquanto anota tudo no computador. A médica de fala suave e jeito calmo é inesperadamente ágil diante do teclado; bate as anotações como se tivesse sido a melhor aluna de um daqueles velhos cursos de digitação.

Quando Joselita deita na maca e levanta a blusa, imediatamente reclama do frio. Dayana, que usa botas e um pesado casaco bege debaixo do jaleco branco, concorda com a reclamação. Depois de examinar Joselita, a médica volta a conversar com a paciente. Dayana quer se fazer entender e simplifica a linguagem tanto quanto pode: “O bichinho que mais faz isso é a giárdia”. Joselita chegou no posto de saúde às onze e cinquenta e cinco. Vai sair meia noite e vinte e três: “Tá melhor que o convênio”, elogia. Ela tem um cartão da Sulamerica, mas diz que prefere a saúde municipal para o que ela define como “emergências”.

As unidades de saúde 24h vivem pressionadas pela demanda que a saúde básica não consegue atender e, principalmente, pelos casos psiquiátricos. Cada vez mais, Dayana e Julyana recebem pacientes depressivos e ansiosos, alguns chegam a somatizar e apresentam sintomas físicos severos. Outros querem drogas que elas não se sentem seguras para receitar – não é a função delas.

Recentemente, as demandas da psiquiatria se somaram às loucuras do judiciário para gerar uma situação doida dentro da Unidade de Saúde Albert Sabin: uma mulher diagnosticada com depressão disputava a guarda do filho com o marido na justiça. Quem conhece a história de perto conta que o marido era beberrão e agressivo. Na frente do juiz, ele se porta como um gentleman da Inglaterra Vitoriana. A mulher se irrita com a fraude e surta durante a audiência. O episódio rende uma liminar determinando que a mãe surtada fique contida dentro da unidade de saúde até que a família possa resgatá-la. A família é de Araxá e só chega depois de cinco dias, com passagens de ônibus doadas por um pastor evangélico. Durante a espera, Dayana mantém a paciente com recursos próprios; doa roupas e itens básicos, como pasta de dente. “Tem vezes em que a gente acaba se envolvendo com os dramas das pessoas. Não dá pra evitar”.

Não que Dayana não tenha seus dramas, ela só não faz grande caso deles. O trabalho noturno na unidade de saúde é sua principal ocupação, mas não é a única; ela também trabalha para a iniciativa privada. Há dias em que duas horas e meia de sono são todo o tempo de descanso que ela tem. A adaptação a essa rotina feroz provocou enjôos e longos períodos insones. Recentemente, uma inflamação na garganta a afastou das atividades. Médico também adoece.

Adendo:

Julyana também deve ter seus dramas. Ela estava na equipe que Curitiba enviou para atender os queimados de Santa Maria. Quando estive na unidade de saúde do Fazendinha, não a ouvi mencionar tal experiência em nenhum momento. Seriam as lembranças suficientemente fortes para abalar seu jeito alegre e desfazer o seu sorriso fixo?

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Duas espécies em extinção

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Às 11h55 de domingo, reina na Avenida Bispo Dom José uma calma que jamais poderia ser sentida durante a madrugada anterior. Ao contrário dos baladeiros, a avenida não sente a ressaca e parece bastante saudável na manhã seguinte: há poucos carros e é possível até mesmo ouvir pássaros cantando. Os pedestres que eventualmente aparecem podem se sentir seguros para atravessar a rua fora da faixa a passos letárgicos. Na manhã de domingo, quase todos os frequentadores da Bispo Dom José são idosos e a avenida tem o mesmo ritmo deles.

Apesar de tanta calma, há algo acontecendo: na esquina com a rua Belo Horizonte, sete pessoas estão abrigadas debaixo da marquise. O grupo tem materiais de desenho espalhados pelo chão; boa parte pertence a Fabiano Vianna. Apoiando o papel no colo, ele parece estranhamente confortável enquanto desenha a casa polonesa do outro lado da rua. A casa de madeira (como quase todas as outras por aqueles lados) hoje abriga um bar. Desde que virou balada, alguém achou que seria uma boa ideia pintar o casarão polonês de vermelho ketchup e amarelo mostarda.  Talvez Fabiano discorde; no croqui dele, tudo é preto e branco.

“A memória da arquitetura vai sendo apagada rapidamente em Curitiba. Agora são as construções da década de 1960 que estão sumindo”, me avisa Fabiano.  Junto com a meia dúzia de artistas que o acompanham na esquina da Bispo Dom José com a Belo Horizonte, ele se dedica a registrar a memória arquitetônica da cidade antes que ela suma. Fabiano tem bons motivos para se preocupar: Curitiba evitou a destruição do seu patrimônio arquitetônico com os títulos do potencial construtivo. Donos de imóveis históricos recebiam os títulos em caráter compensatório. Essa estratégia funcionou bem até o momento em que a prefeitura soltou uma enxurrada de títulos no mercado. Como a compensasão já não compensa, os donos tratam de demolir tudo que está prestes a virar patrimônio histórico.

Quando Fabiano Vianna termina de retratar o casarão polonês e recebe os elogios dos companheiros, o grupo desce a Bispo Dom José. O arquiteto Reinoldo Klein conta que eles vão encontrar os outros membros que estão desenhando um palacete eclético de forte influência italiana, no número 2.349. Reinoldo me explica que o palacete é um caso preocupante: usado como moradia, foi vendido recentemente. Não se sabe o que o novo proprietário pretende fazer. “Pode acabar como aquela casa do Lolo Cornelsen”, exemplifica Fabiano. A casa a que ele se refere ficava na Presidente Taunay. Foi destruída da noite para o dia no começo da década passada, bem na véspera de incorporar o patrimônio histórico da cidade. Concluo que se trata de um exemplo emblemático.

Enquanto caminham pela Bispo Dom José, os artistas se esforçam para preservar os materiais de desenho da chuva. O arquiteto Wagner Polaki consegue fixar um guarda-chuva na mochila e fica com os braços livres para carregar as pastas. Ele faz a gambiarra com tanta naturalidade que passa a impressão de já estar bem treinado naquilo. O assunto da caminhada é a reforma da avenida, que incluiu bancos de madeira e calçadas de granito. “Aqui tem tudo menos lixeira. Tem banco e não tem lixeira!”, aponta Raquel, parecendo prestes soltar uma risada meio irônica. Pela crítica, imagino que Raquel seja arquiteta, profissão aparentemente majoritária no grupo. Quando pergunto, ela me informa que é apenas uma “curiosa”. Aceito a resposta e, rapidamente, ela volta a observar a reforma da avenida: “Olha! Também tá faltando lixeira no ponto de ônibus”.

Em frente ao palacete do número 2.349, o grupo reúne os desenhos e posa para fotos. Fico sabendo que eles são o “Croquis Urbanos”. Consta que o grupo se formou quase sem querer: o arquiteto Reinoldo Klein fazia um croqui do Paço Municipal. O professor José Marconi e sua esposa Lia o viram pela janela do apartamento. Desceram para a praça, trocaram ideias e marcaram um encontro. Outras adesões teriam chegado da mesma forma. Na manhã do último domingo, contei doze espécies em extinção retratando outras espécies em extinção.

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Farofa à francesa

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O ex-prefeito não foi o único ausente.

Há cadeiras de praia em frente ao número 2.349 da Avenida Bispo Dom José. Há um isopor com bebidas geladas e, contraditoriamente, tambem há guarda-chuvas abertos. Todos os itens pertencem a um grupo de meia dúzia de pessoas. Já passa do meio dia quando eles decidem deixar o lugar. “Vamos em busca de um ponto que ofereça uma visualização mais fácil”, diz Luan de Rosa, um rapaz de ralos pelos faciais que não aparenta ter todos os seus 18 anos de idade.

Ao descer a avenida, os seis passam por um carro da RPC. Dentro, há três rostos entediados; eles vieram para cobrir uma manifestação com sete mil pessoas. Luan e o grupo decidem ficar na esquina da Bispo Dom José com a Deputado Antonio Baby. Acreditam que ali as chances de serem encontrados são maiores. Além disso, as marquises são generosas e oferecem uma boa proteção contra a chuva.

As cadeiras de praia montadas na Bispo Dom José são a Farofada no Granito, uma manifestação que entende o calçamento do bairro nobre como uma metáfora de exclusão social. Na internet, o evento prometia “sambar na cara da elite”. O vereador José Carlos Chicareli deve ter feito uma interpretação literal da frase e pediu que a prefeitura responsabilizasse o movimento por eventuais danos ao partimônio público. A entidade que representa os bares do Batel também tratou o assunto pelas vias da segurança pública e recomendou que todos fechassem as portas para se proteger da balbúrdia que tomaria conta das ruas. O vereador e os empresários ficariam mais tranquilos no começo chuvoso da tarde domingo, se vissem os seis manifestantes espremidos sob a marquise.

Entre os manifestantes está o Alexandre Alab, um professor de história que tem o saxofone como hobby. Alab saca um sax sabe-se lá de onde e ensaia um John Coltrane. Ele vai bem até ser interrompido por um jornalista da CNT que quer saber o que está tocando. Ao ouvir o nome de Coltrane, o repórter policial parece confuso e muda de assunto; ressalta que o importante é que ele tem bons microfones capazes de captar o som. O repórter não conhece jazz. Alexandre certamente lamenta, mas não diz nada. Surge a voz de Luan: “Gente vamos sair daí [do refúgio sob a marquise]. O repórter quer que a gente se acumule para fazer boas imagens”. O grupo não ouve; presta muito mais atenção nos guardas municipais que se aproximam.

Seis motos da guarda municipal sobem a Bispo Dom José. A equipe se estabelece a cerca de vinte metros dos manifestantes. Um dos guardas conversa com alguém pelo rádio. Do aparelho surge a ordem: “A equipe fica no Batel até as 15h para monitorar o movimento”. Há um muxoxo geral entre os agentes da segurança pública. Não admitem, mas querem ir logo embora. “Essa farofa já virou sopa”, reclama um deles.

Na esquina, a manifestação cresce. Recebe a adesão de uma garota hipster debaixo de um guarda-chuva de criança, de uma adolescente acompanhada da mãe, de um casal de hippies bem maduros e de outros tantos tipos. Percebendo que há mais público, Luan sobe em um dos bancos de madeira maciça instalados na mesma reforma que revestiu o chão com granito: ”Gente, eu não sou o organizador da manifestação. Sou um mero ‘motivador social’ e estou aqui para apresentar algumas músicas com teor de marchinha”. Luan pede a participação dos outros manifestantes; quer que todos cantem.:“Ei burguês aí, me dá um granito aí”. Como há poucas vozes se somando, Luan faz novas tentativas. O refrão “Eu vou farofar, olê-olê-olá, e a elite vai se mudar” fez mais sucesso, mas também não vingou. A trilha sonora da farofada acabou mesmo vindo do saxofone de Alexandre.

A imprensa vai se acumulando ao redor dos manifestantes. A RPC saiu do carro, o G1 está presente e a CNT ainda não foi embora. A Rede Massa tenta proteger a câmera da chuva e o cinegrafista da Band, de mangas curtas, faz pouco caso dos pingos . Se, por um acaso cataclísmico, houvesse uma briga de gangues entre jornalistas e manifestantes, seria bem capaz dos primeiros saírem vencedores. Eles não estão em considerável desvantagem numérica e poderiam usar os pesados tripés das câmeras como armas.

Tendo captado imagens e gravado depoimentos, a imprensa vai saindo de fininho. Enquanto isso, novos manifestantes vão chegando. Há jovens com dread-locks estilosos, um casal de ciclistas e uma feminista de bikini. Sempre que o público aumenta, Luan se arrisca em uma nova performance. Dessa vez ele sapateia ao som do saxofone de Alexandre e lamenta não ter trazido os calçados adequados.

Um homem de meia idade decide seguir o exemplo juvenil de Luan: ele sobe no banco e prepara uma nova apresentaçnao artística. Uma edição da antologia “Toda Poesia”, de Leminski, brotou do mesmo vácuo misterioso de onde saiu o sax. Junto com um megafone, o livro é o que basta para fazer um recital. Luan não deixará o companheiro sozinho; também quer ler poesia no megafone e, quando terminar, ainda vai insistir nas marchinhas.

A Guarda Municipal, que tinha sido orientada a ficar até as 15h, desiste de observar a manifestação às 13h33. Não viram a farofa ser servida em pratos descartáveis e também não puderam intervir quando a manifestação finalmente chega o mais perto que jamais chegará de atrapalhar os comerciantes da região: o proprietário do número 2.193 pretendia entrar no seu estabelecimento, mas havia uma bicicleta encostada na porta. Ele precisou esperar o dono da bike aparecer e perdeu cerca de trinta segundos do seu domingo. Não consta que o comerciante tenha reclamado ou feito grande caso do incidente.

A manifestação continua recebendo adesões: duas jovens que trazem banquinhos de plástico, uns dois ou três tiozões animados, um representante do Partido Pirata e Chik Jeitoso; um bruxo que faz aparições ocasionais em vários programas de TV, incluindo o horário eleitoral gratuito. Ao marcar presença na Farofada, Chik usa uma capa vermelha, tem um charuto na boca e carrega uma galinha de plástico em uma das mãos. Quando ele aperta a galinha de brinquedo, ela cacareja. Mesmo com todo o aparato, Chik está longe de ser a figura mais excêntrica da manifestação. Luan, sapateando sobre o banco, girando um guarda-chuva multicolorido, estendendo os braços em gestos efusivos e discursando com frases de construções elaboradas ganha de longe.

Quando o rapaz se cansa da exposição, desce do banco e pega uma cerveja. Ele propõe um brinde a André Feiges, um dos organizadores do ato público. Um segura uma Heineken e o outro tem uma Skol Latão. “Viva a Farofa”, grita Luan, sozinho. Me aproximo dos dois. “Nós não inventamos nada, apenas captamos uma ideia que já estava no imaginário coletivo”, me diz André. Decido contar os presentes para ter noção daquilo que se entende por “coletivo”; são 36 pessoas. Na internet eram mais de sete mil. Eu pretendia fazer mais uma ou duas perguntas a André, mas, sem que eu perceba, ele se afasta e se ocupa de outra tarefa qualquer. Ao meu lado só resta Luan, parecendo muito mais disposto a dar entrevista. São 14h35 quando decido imitar a despedida da Guarda Municipal e do resto da imprensa loucal – saio à francesa.

Comentário de Kaley Michelle, recebido minutos depois da publicação do texto:

Que trabalho de jornalismo mais tendencioso hein? Não tem vergonha não? Ao longo da tarde passaram ao menos 300 pessoas por ali. Recolhemos assinaturas, discutimos política nos bairros, falamos sobre censura na mídia ( como essa sua), bloqueamos a rua, depois o cruzamento da praçinha, votamos no tema e local da próxima farofada! Tudo debaixo de chuva e frio! Mas não é válido porque nós não protestamos do jeito que você queria? Porque o fervo não foi no horário que você quis???? Foi uma grande vitória, a primeira de outras com certeza. Quero agradecer teu trabalho, que é por causa dessa ditadura silenciosa e mídia mentirosa que seu país está nesse estado! ASSINADO: FEMINISTA DE BIQUINI

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Uma outra sede desesperadora

Jéssica nunca foi uma frequentadora assídua da boate Kiss. O dia 27 de janeiro foi uma exceção. Como não havia fila e todos os outros planos para aquela noite tinham falhado, ela e o namorado se sentiram tentados a entrar.

Jéssica nunca foi uma frequentadora assídua da boate Kiss. O dia 27 de janeiro foi uma exceção. Como não havia fila e todos os outros planos para aquela noite tinham falhado, ela e o namorado se sentiram tentados a entrar.

Quando Jéssica Duarte sai do banheiro da boate Kiss, ela percebe que a algazarra supera a bagunça habitual gerada por um show do Gurizada Fandangueira. Há muita gente se atropelando, concorrendo em busca da saída. Ela encontra o namorado, Bruno. Os dois deliberam rapidamente sobre o que estaria acontecendo. A hipótese de uma briga entre bêbados parece a mais provável para ambos. Decidem sair. As dificuldades que os dois terão nos próximos minutos serão objeto de análise e especulação na imprensa nacional pelas próximas semanas. Jéssica não acompanhará as notícias. Estará em coma.

Na tentativa de deixar a boate Kiss, Jéssica ainda não questiona a necessidade de saídas de emergência e os protocolos de segurança. Ela tem um problema mais imediato: os sapatos de salto alto reduzem sua mobilidade. Ela segura a mão do namorado enquanto ele tenta abrir espaço pela multidão. Como se imagina, o ambiente não é de muita cordialidade. O salto alto faz Jéssica tropeçar. Ela perde a mão de Bruno. Os dois, que estavam juntos há cinco anos, se separam para sempre. O rapaz é tragado pela multidão.

Jéssica, agora sozinha, percebe uma fumaça preta que vai ficando cada vez mais densa. Cai a hipótese de que o tumulto tenha sido causado por uma simples briga. Depois disso cai a energia e a iluminação da boate vai cedendo aos poucos. A consciência de Jéssica também se apaga, mas de maneira muito mais abrupta: a garota desmaia.

Jéssica só acorda do lado de fora da boate Kiss. A consciência que ela perde de um momento para outro só retornará em parcelas. A primeira parcela chega graças a alguém que esbofeteia seu rosto em busca de uma resposta: “VOCÊ TÁ VIVA?” Jéssica murmura que sim, percebe que está do lado de fora da boate, e volta a desmaiar.

Quando acorda novamente, já está no hospital. Pensa no namorado, sente um impulso irresistível de ir atrás dele. Arranca os tubos de oxigênio, se desliga do soro e sai da maca. Ela não enxerga direito e sente uma dor que compromete seus outros quatro sentidos. Os olhos de Jéssica só são capazes de distinguir muitos corpos no corredor do hospital, muitos mortos. O celular ela encontra graças ao tato. A primeira ligação é para Bruno. Nada. A segunda é para a sogra. Jéssica compartilha com ela o pouco que sabe e diz que as duas precisam descobrir o que houve com Bruno.

No corredor do hospital, outras duas garotas cruzam o caminho de Jéssica. Ela não as conhece, mas percebe que as duas choram ao vê-la: “Meu Deus, olha o braço dela!” É só nesse momento que Jéssica percebe o próprio corpo. Vê que tem extensas queimaduras no braço direito e provavelmente tantas outras a serem descobertas. Jéssica volta ao celular: “Pai, tô morrendo”.

Cláudio, o pai de Jéssica, mora em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba. São 4h35 da manhã quando ele recebe a ligação a cobrar. Às 7h, ele embarca no Aeroporto Internacional Afonso Pena. Às 11h30 ele está em Santa Maria. Durante a viagem, consegue contato com um amigo da família que atua como médico no Rio Grande do Sul. É através desse médico que Cláudio conseguirá cuidar da filha antes mesmo de estar fisicamente presente.

Depois de falar com o pai pelo telefone, Jéssica vê enfermeiros perdendo a batalha para salvar a vida de alguém que está ao lado dela. Quando o paciente morre, eles transferem suas atenções para ela: “Aquela menina tá muito mal!”, berra um deles. Jéssica é levada para uma outra sala. Pede água e recebe um copo; é bem menos do que ela gostaria de beber. Jéssica argumenta que a garganta está seca. Os enfermeiros dizem que não podem oferecer mais: “Não sabemos por quais procedimentos médicos você vai passar e não sabemos se vai interferir”. Ela percebe que há uma pia na sala e enfia a cabeça debaixo da torneira. Sempre que lembrar da sede que sentiu naquele dia, a definirá como “desesperadora”.

O médico que Cláudio conseguiu contatar durante a viagem para Santa Maria surge no hospital. Até então, Jéssica só o havia visto uma vez na vida, e bem de longe. Some-se a isso o fato de que os olhos dela ainda não funcionam direito: Jéssica e Everton (é esse o nome do médico) têm poucas probabilidades de se reconhecer no meio da balbúrdia que tomou conta do hospital. Mesmo assim, o encontro acontece. Everton afasta os outros profissionais que cercavam a conhecida e corta os anéis que se recusam a sair dos dedos queimados. Jéssica apaga; o sono, dessa vez, será mais longo: um coma de dez dias, seguido por outros 25 de uma dolorosa lucidez na UTI.

Durante o internamento, recebe a visita da família. O irmãozinho recém nascido também aparece. Ao ver o bebê, ela retoma mais uma daquelas parcelas de consciência. Quando se recupera, vem com a família para a Região Metropolitana de Curitiba. Não quer saber de Santa Maria; o curso de adminsitração já estava trancado e além disso “Santa Maria, sem o Bruno, não faz o menor sentido”.

Jéssica tem 45% do corpo queimado. A porcentagem é um daqueles números ela nunca esquecerá, como a data de nascimento, o RG, o CPF e o telefone de casa. Os 45% estão incorporados à identidade dela, mas são surpreendentemente discretos; íntimos até. O rosto permanece intacto em sua beleza, exceto por uma expressão severa que, a julgar por fotos antigas, não se fazia presente antes da tragédia.

Quando a vejo pela primeira vez, tenho meia dúzia de percepções que antecedem a visão das queimaduras. Reparo primeiro que é loira, depois que tem olhos grandes e atentos, em seguida que é magra, que usa um cardigan listrado, etc. As queimaduras só se anunciam quando ensaio um aperto de mão. Jéssica, talvez pela força do hábito, faz menção de me dar a direita; é a mão queimada. Numa fração de segundos, parece desistir e me oferece a esquerda. Nosso cumprimento é desajeitado. Uma dificuldade banal, perto do esforço que Jéssica tem feito para melhorar a caligrafia canhota.

Passo meia hora conversando com ela; uma entrevista de rádio. Não ouço lamentações nem odes ao poder divino, tão comuns nos depoimentos de sobreviventes. Ouço um relato surpreendemente objetivo, quase frio. Jéssica só ameaça deixar cair uma lágrima ao falar de Bruno. Desde que saiu do hospital, tateia o teclado do computador precariamente com a mão esquerda, em busca de informações sobre o namorado. Quer saber como foram os últimos momentos dele. Pergunto se essa busca não causa dor. “Claro que dói”. Jéssica deseja conhecer a história de Bruno (que também é a história dela) com a mesma intensidade com que pedia água no hospital – uma outra sede desesperadora.

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Gustavo Fruet: espremido entre a cordialidade e a ruptura

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A arquiteta Cecília Giuliano tira do bolso duas folhas de papel A4. É o discurso dela para o lançamento do livro “Parques e Bosques Urbanos de Curitiba”. Cecília divide o palanque montado no Passeio Público com o prefeito da cidade, Gustavo Fruet, e outras autoridades da gestão municipal, além do representante da rede de supermercados que ajudou a financiar o livro. O texto da arquiteta começa com uma declaração de amor  à natureza e termina com ela se oferecendo para dar autógrafos. Aplausos protocolares.

Quando Cecília finaliza, o microfone passa de mão em mão. Há mais discursos longos, entre eles o do representante do supermercado. Com a camisa aberta em dois botões, mostrando os pelos do peito e um medalhão dourado, ele passa uma impressão de despojamento que contrasta com a rigidez formal da arquiteta que discursa lendo.  Mesmo assim, a fala dele se arrasta por um bom tempo; ele anuncia as virtudes da empresa que representa, também diz que ama o meio ambiente, etc. Aplausos protocolares.

São 11h53 da manhã quando Gustavo Fruet finalmente recebe o microfone. Em solenidades assim, o político mais graduado é sempre o último a falar.

“Na última solenidade em que eu estive tinha um menino de 6 anos, o João. Deram o microfone pro João discursar e, olha, foi o melhor discurso que eu ouvi em muito tempo! O João só disse assim: ‘Que não chova e que ninguém se machuque. Amém!’ Hoje, eu vou usar as palavras do João, mas quero acrescentar o seguinte: Que não haja discurso longo”. A arquiteta olha pro chão. O representante do supermercado faz menção de aplaudir.

Se Fruet tivesse encerrado sua participação nesse ponto, teria trocado a formalidade que caracteriza a vida pública de Curitiba por uma novidade espirituosa e, quem sabe, até meio ofensiva. Não o fez. Acrescentou elogios aos varredores do Passeio Público e aos policias militares. Terminou com um previsível “Viva Curitiba”. O discurso acabou sendo a síntese do próprio prefeito: um homem divido entre a cordialidade e um aparente desejo de ruptura.

Ao descer do palanque, Fruet é abordado por Gerson Guelmann, o homem que coordenou sua campanha em 2012: “Tem vários dos seus secretários que deveriam estar aqui”. Como a advertência de Guelmann é dada em tom amigável, com mão no ombro e sorriso no rosto, Fruet solta uma gargalhada. A conversa dos dois não poderia se estender por mais tempo. A secretária Mirela Prosdócimo está por perto e traz um par de crianças que quer apresentar ao prefeito. Fruet começa a tirar fotos, uma atividade que tomará boa parte do seu sábado.

Depois de Mirela, há o pai de Bárbara e Luara. Ele quer que suas gêmeas de 5 anos sejam fotografadas com Fruet. O pedetista consente. Alguém invade a foto e Bárbara se irrita. Todos repetem a pose. Mais pais e filhos se aproximam. Querem fotos.

Fruet precisa atravessar o Passeio Público para dar a largada em uma das baterias da regata de pedalinhos marcada para aquele sábado. Ao caminhar pelo parque, ele tira 38 fotos com crianças; a maioria a pedido de pais que juravam ter votado nele. Outras tantas fotografias são solicitadas espontaneamente pela piazada. A um menino que usava camisa do AC/DC, Fruet recomenda ouvir Coldplay. O guri não faz cara bonita, mas quer foto com o prefeito mesmo assim.

O chef Alessandre Bressaneli já alcançou a maioridade há alguns verões, mas também quer foto com o prefeito. Bressaneli está no Passeio Público para participar da Vinada Cultural, uma feira gastronômica especializada em vina. Ele oferece um cachorro quente a Fruet, sorri para o clique e sai faceiro. O prefeito fica com o hotdog na mão. Come metade enquanto caminha e posa para novas fotos. Por fim, deixa o sanduíche nas mãos de um assessor.

Além das crianças e do chef, também interrompem a caminhada de Fruet o reitor da UFPR, Zaki Akel, o jornalista Reinaldo Bessa e uma mulher de meia idade que reclama dos congestionamentos. “Curitiba tem quase um carro por habitante, a gente faz o que pode, mas não tem como voltar no tempo. A gente não vai voltar aos anos 80”, explica o prefeito.

Na largada da regata de pedalinhos, Fruet é recebido por Dante Mendonça. O cronista, junto com uma boa meia dúzia de intelectuais, é o mentor da programação que fez a classe média pisar no Passeio Público pela primeira vez em muito tempo. A regata, com seu ineditismo galhofeiro, pretende resgatar o aspecto lúdico do parque mais antigo de Curitiba. Embora a ideia não tenha partido da prefeitura, consta que foi bem recebida no Palácio 29 de Março.

Ao receber o prefeito, Dante se apresenta com um quepe de marinheiro. O acessório o faz parecer uma espécie de Chacrinha comportado.  Fruet é encaminhado ao pequeno trapiche que marca a linha de chegada. Ele espera que os pedalinhos sejam alinhados para a partida e faz soar um sino. Dada a largada, os pedalinhos fazem uma trajetória confusa. Alguns se chocam e outros arriscam começar a corrida na contra mão. A cena confusa dura uns poucos minutos. Logo os pilotos pegam o jeito e a corrida flui. Fruet deixa o trapiche e aperta mais algumas mãos. Bate uma foto com dois adolescentes esguios que venceram a bateria anterior e outra com uma piriguete de meia idade. Está atrasado para o próximo compromisso.

Na saída do Passeio Público, mais crianças e mais fotografias. O vereador Paulo Salamuni, presidente do legislativo local, surge com uma pasta debaixo do braço. Quer a assinatura de Fruet numa homenagem que concederá a um líder religioso sírio que visitará Curitiba. “Porra, Salamuni, vai despachar aqui?”, pergunta um assessor irritado. Salamuni faz que não ouve. Fruet se abaixa e, numa posição bastante desconfortável, com o papel apoiado no chão, faz o que o vereador pede; assina. “Esse Salamuni é um sem noção”, me adverte um outro membro da comitiva do prefeito. Salamuni segue Fruet até o carro. O motorista espera enquanto o vereador esbanja saliva. Um assessor, temendo que o vereador derrube o resto da agenda, trata de apressar os dois. Fruet finalmente embarca.

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A comitiva do prefeito pergunta se haverá almoço. “Almoço é costume burguês. Sejamos revolucionários”, brinca Fruet. Há uma breve deliberação sobre parar para almoçar ou não. Consenso atingido, o grupo faz uma parada em uma padaria da Rua Francisco Alves Guimarães. Todos os assessores querem x-egg, Fruet quer sorvete. Todas as mesas da padaria estão disponíveis. O gabinete se instala na mais discreta. Ao sentar, Fruet tira o celular do bolso pela primeira vez naquela tarde. Recebe uma mensagem de texto de alguém que está irritado com o ruído produzido pelo gerador de energia de um supermercado do Centro Cívico. “Tem que ver isso aqui”, ele diz, antes de guardar o iPhone. Percebendo a deixa, pergunto sobre pesquisas qualitativas e quantitativas que a prefeitura teria encomendado a uma série de institutos. Fruet estava prestes a responder, mas foi interrompido por uma funcionária da padaria. Com um prato de sonhos na mão, ela insiste para que o prefeito prove a nova receita. Fruet, que ainda não havia recusado foto ou comida naquele sábado, aceita. Me oferece um sonho. Recuso e retomo o assunto das pesquisas. “Ah, sim! Só das qualitativas, temos três nas mãos”. Quero saber sobre o que são as tais pesquisas. Fruet menciona um levantamento sobre o metrô: “A cidade está dividida”. Longe do prefeito, um assessor deixa escapar que também há dados sobre a reação do curitibano ao fim do subsídio para o transporte coletivo: “Ao contrário do que se pensa há uma parcela da população que entende que o Beto [Richa] fez uso político desse negócio”.

Um dos principais nomes da equipe de Fruet é o doutor em economia Fabio Scatolin. Ele não está presente na padaria da Rua Francisco Alves Guimarães, mas é mencionado várias vezes. Se não estivesse trabalhando no poder público, Scatolin estaria terminando seu PHD. Há indícios de que ele trate a administração municipal pelas vias da metodologia científica. Scatolin nunca concedeu uma entrevista em que não falasse da necessidade de cruzar dados. Gosta de contrapor pesquisas, mesmo as que aparentemente não guardam relação entre si. Fruet parece compartilhar dessa preferência. Isso fica claro durante a conversa na padaria: “Estamos ajustando a base estatística da prefeitura”, Fruet repete.

Um dos responsáveis por coletar dados sobre a cidade é o ICI, o Instituto Curitiba de Informática. Na padaria, Fruet não menciona os contratos suspeitos que deram fama ao ICI, mas quase se perde ao listar tudo aquilo que a adminsitração municipal poderia estar fazendo se recebesse os preciosos pacotes de informação do instituto. Por fim, ele larga o sonho que estava comendo e assume um ar mais grave: “Vamos trocar toda a diretoria do ICI. E vai ser já”. Já, quando? “Nessa semana. É claro que a gente quer uma solução negociada, mas a coisa tem que funcionar”.

No começo da gestão, Fruet fez com que o ICI aceitasse ser fiscalizado pelo Tribunal de Contas através de um aditivo no contrato. O ICI é uma das faturas mais caras que a prefeitura precisa pagar. Na última gestão, foram firmados mais sete contratos com o instituto que somam R$ 585 milhões. Criado em 1998, o ICI nunca passou por uma auditoria decente e há indícios de superfaturamento que chegaram a despertar o interesse do Ministério Público. Dividido entre a cordialidade e a ruptura, Fruet prefere centrar seus argumentos no trabalho que o instituto deveria estar entregando e não faz referência a suspeitas, por mais bem fundamentadas que pareçam. Foi assim com os restos a pagar deixados pela gestão anterior. Encaminhou um relatório ao MP, mas, ao falar sobre o assunto com a imprensa, não mencionou o nome do antecessor e não ousou soltar a expressão “herança maldita”, recorrente nesses casos. “O [Luiz Geraldo] Mazza diz que me falta ‘punch’. Eu faço o que eu tenho que fazer, não preciso ficar emitindo juízo de valor até porque isso atrapalha os procedimentos”, ele me disse.

A atendente da padaria ressurge. Agora ela oferece um empadão de frango como cortesia. Dessa vez ela não usa a desculpa de que a receita é nova. Fruet aceita. O empadão me interrompe no meio de uma pergunta sobre as receitas da prefeitura. Retomo.  Fruet conta que está prestes a visitar o Japão a convite da JICA, o órgão do governo japonês que oferece incentivos a países em desenvolvimento. Fruet busca um empréstimo equivalente a um bilhão de reais. Sem que eu pergunte, ele completa: “Não é para o metrô”. Quero saber se não é possível pulverisar essa grana em várias obras de mobilidade. “Seria o sonho de qualquer gestor, mas não. Não dá”. E Fruet acrescenta: “Aliás, nem sei se isso é desejável. Uma das nossas pesquisas qualitativas mostrou que quando a administração abre muitas obras ao mesmo tempo, ela passa uma ideia de falta de planejamento”.

Fruet não faz referências ao passado recente e também não pronuncia o nome de Luciano Ducci. Não adianta insistir, ele só se refere ao levantamento qualitativo e faz a política parecer coisa técnica, absolutamente distanciada das relações humanas e dos assuntos pessoais Nem sempre foi assim. Na conversa da padaria, evoco uma lembrança de 2004. Ainda no PMDB, Fruet tinha sido preterido pelo chefe do partido, Roberto Requião, que negou a ele a oportunidade de concorrer nas eleições municipais. Naquela oportunidade, Fruet concedeu uma entrevista cheia de lamentações e lágrimas nos olhos. Foi um pronunciamento absolutamente emotivo e meio inconsequente. O que o fez mudar tanto de lá para cá? “A gente vai ficando com o couro curtido”, é a única explicação que Fruet consegue me oferecer.

De “couro curtido”, ele consegue adotar uma abordagem mais objetiva das eleições de 2012, coisa que foi incapaz de fazer em 2004: “Em 2012 eu sofri um processo de desconstrução, mas não julgo quem liderou esse processo. Quem faz política está sujeito a estratégias assim e isso não pode gerar mágoa”. De fato,  é de se esperar que um político tenha a sua persona  desconstruída quando disputa um cargo no executivo pela primeira vez. É apenas óbvio. Tão óbvio quanto as críticas que a administração dele deve receber caso ele tente a reeleição. O que é mais frágil diante de uma estratégia de desconstrução? A persona, que é uma obra individual, ou a gestão, que é coletiva e depende de milhares de colabores sobre os quais nem sempre se tem controle? A pergunta é retórica. Fruet percebe: “É por isso que a gente não pode se perder com esses atritos de varejo dentro da equipe”, diz ele, enquanto lança um olhar cheio de significado aos assessores que devoram seus sanduíches.

Durante a breve conversa na padaria, deixo um x-salada intocado. Pretendo abandoná-lo na mesa. Fruet não deixa. Argumenta que “fica chato” e manda um assessor embalar para viagem. Ok, como o sanduba no carro. Próximo compromisso: “Libertadores do Crack”.

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A Copa Libertadores do Crack é um evento esportivo de nome confuso, ligado aos pastores da Igreja Universal do Reino de Deus. A competição é no Ginásio do Tarumã, onde o prefeito é recebido pelo pastor/vereador Valdemir Soares. Filiado ao PRB, Soares tem um sotaque carioca ocasional, usa tênis all-star e, quando tem um microfone, pontua suas frases com “Amém”. Ao ver Fruet na porta do ginásio, o pastor entrega a ele uma camiseta do evento.

Para entrada de Fruet, o pastor preparou algo inadvertidamente cômico: das caixas de som sai a música Eye of the Tiger, a mesma que ouvimos no cinema, quando o boxeador Rocky entrou no ringue. Fruet veste a camisa preta da Libertadores do Crack. Alguém ajeita a gola, que tinha ficado retorcida. O prefeito sacode os ombros, gesto típico de boxeador na véspera da luta. Já paramentado, ele é levado ao centro da quadra. Ao redor dele há adolescentes em uniformes esportivos, enfileirados como se fossem militares. Cerca de dois terços das arquibancadas estão ocupadas. O pastor anuncia o prefeito e manda executar o hino nacional. Eye of the Tiger é encerrada pela metade.

Antes de deixar Fruet discursar, Valdemir Soares protagoniza um show mais longo que o discurso da arquiteta Cecília Giuliano, no Passeio Público. Em determinado momento, ele pede que os adolescentes dêem socos no ar aos berros de “NOCAUTE AO CRACK! NOCAUTE AO CRACK! NOCAUTE AO CRACK!”. A cena guarda um paralelo com o ritual orwelliano do Minuto de Ódio, embora o crack pareça um objeto de aversão mais razoável que o suposto traidor Goldstein. Fruet se vê cercado por jovens de aparência nervosa que socam vácuo, mas reluta em imitá-los.

No breve discurso no Ginásio do Tarumã, Fruet fala das ações previstas na área de prevenção às drogas e cita de cabeça os números das pastas relacionadas ao tema. O termo que Fruet usa é esse mesmo: “prevenção”. O pastor Valdemir, que fala em nocaute, incentiva socos no ar e gosta da música tema de Rocky Balboa talvez preferisse  a palavra “combate”. Na saída do ginásio, dois guardas municipais que estavam de serviço pedem para falar com o prefeito.  Fruet os atende, já diante da Santa Fé pronta para partir. O motorista espera pacientemente.  O próximo compromisso é na Praça do Japão e dessa vez não haverá escala na padaria.

“Você sabia que, em 2011, os restos a pagar da prefeitura saltaram de noventa milhões para quatrocentos?“, me pergunta o chefe de gabinete Itamar Neves, no caminho para a Praça do Japão. Ouço um Itamar cada vez mais enfático reclamar da situação em que a nova gestão encontrou a prefeitura.  Me pergunto por que o prefeito nunca faz o mesmo. Quando chegamos ao Hanna Matsuri, os organizadores deixam Fruet escolher o que ele vai fazer primeiro. Ele quer banhar o Buda. Na tradição Zen, esse é um ritual que evoca uma gratidão irrestrita que se manifesta mesmo diante das circunstâncias mais negativas da vida. Para Fruet, talvez seja só mais uma formalidade. Mesmo assim, agora tudo faz sentido.

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